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O BLOG DO V-P
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DE BREVITATIS ADULATIO ou DE JEANS & LA DOLFINA

Um surto hipocondríaco, remanência dos tempos em que eu vivi doente (e por pouco não morri das complicações imaginárias de uma tosse alérgica), levou-me sexta-feira pela manhã a um nosocômio lotado de enfermos. Picaram-me o braço, retiraram-me sangue, contar-me-ão o PSA. Não vale que me afirmem que estou com uma cara boa; estou persuadido: quem vê cara, não vê próstata.

Esse não é o tema central desta postagem. A questão é outra. Não me vi confortável de paletó e gravata para que me surrupiassem um pouco de sangue. Então pus-me no que, salvo engano de minha parte, chamam de "traje esportivo". Isso sempre me pareceu um convite para ajaezar-me de uma camisola do Jabaquara. Minhas filhas ferreteiam-me em dizer que não é assim. Tornaram-me defeso vestir-me sem aconselhamento.

O fato é que me enroupei de uma camiseta La Dolfina e de um par de panos juntados que, segundo me ensinaram, faz as vezes de uma calça.

Explico-me, primeiro, sobre a calça. Chamei-a, certa vez, de rancheira, tal era comum referi-la na minha mocidade, e fui por isso alvejado com meia dúzia de cascalhadas incontíveis. Tentei corrigir: "Não, não rancheira. Lee, calça Lee, perdão...". Novas cachinadas, e desta vez superando a meia dúzia. Alguém, piedosamente, lecionou-me que essa espécie de calça agora se designa jeans. Jeans que, a meu ver, aqui para nós, é só um tecido... Mas vá lá, metáforas, metáforas... Deve ser coisa excelente essa jeans (ou rancheira, ou Lee...), porque não há meu aniversário (ainda o comemoro) ou Natal em que não me presenteiem com uma dessas jeans. E, de modo invariável, vem ela adornada com dois avisos orais: 1- "agora, sim, trata-se de uma calça de último tipo, moderna, moderna" (as dos anos anteriores, sugerem-me, devem amealhar-se num canto recôndito do roupeiro, sem mínima vocação para o uso); 2- "essa calça serve para todas as ocasiões" (o que, a ser verdade, me induz pensar que não serve para ocasião nenhuma, primícia de que logo segue me ponha eu a acastelar a nova jeans no monte das antigas).

Agora trato da camiseta La Dolfina. Preta, com a etiqueta da marca (logotipo e texto) estampada na frente da peça: sentir-me-ia uma espécie de outdoor ambulante, não se dera que, tristíssima figura, comporto-me, habitual canhestro, como um paradoxo da publicidade possível: um painel deambulador antipublicitário! Comprei essa Dolfina em Buenos Aires, na Galeria Pacífico, au rés de chaussée. Garantiu-me o vendedor (foi o mesmo que, certa vez, me empurrara um terno gelo só rara e corajosamente vestido), dizia eu: garantiu-me o vendedor que, com minha esbelta compleição (era de mim, era de mim que ele estava a falar!), dispensava provasse eu a camiseta. Nascemos, a camiseta e eu, um para o outro. Amor pela Dolfina à primeira vista. Rectius: à vista, de fato, foi o pagamento do preço da camiseta...

Só no Brasil, resolvi trajar-me com essa desdita cuja Dolfina. De pronto, coloquei-a mal: o logotipo foi parar nas costas. A desgraçada, após isso, não queria sair; enroscou-se em meu pescoço, e sorte minha que eu não estava em crise hipocondríaca; teria morrido estrangulado pela Dolfina. Advertiram-me a tempo de que uma etiqueta interna assinala a orientação correta das camisetas (lá em casa são minha mulher, três filhas, duas empregadas... sempre há alguém de vigilância quando apareço ajambrado). Nova experiência: o logotipo veio para a frente mas as mangas sobraram, batendo-me na ponta extrema do dedo médio de cada mão. Alguém confortou-me com o fato de que, ao menos, as duas mangas tinham o mesmo comprimento.

Deram-me um curso rápido, mais ou menos ao estilo Assimil, de que a Dolfina poderia ainda usar-se, contanto que eu recuasse as mangas à altura da metade do antebraço, o que corresponde, no meu caso, a um meu palmo e oito dedos a contar do linde extremo do dedo médio. A boa notícia posterior foi que a Dolfina, após lavagem depuradora, não encolheu; ao revés, parece que cresceu; só parece que cresceu: não cresceu, deformou-se. As mangas esticaram talvez um pouquinho, vá lá, o que não me acrescentou, porém, nova tarefa em seu retorno à metade do antebraço, dada a cautela com que, discreto que sou, adotei critério gnosiológico objetivo, o ponto médio do antebraço, para manter minhas mãos a descoberto.

Diante desse quadro, é fácil conjecturar o quanto, arroupado com a jeans e a Dolfina, eu, numa imprudente passagem pela nossa Fac, fiquei aterrorizado ao encontrar duas corteses e estimadíssimas ex-alunas, a DINORAH *** e a ELAINE ***. Por pouco não me desemaranhei de falar-lhes, mas não lhes pude resistir ao aceno gentil. Dois dedinhos de prosa (não arrisquei mais do que os mindinhos, não fora o caso de que, fossem os médios, perderia o parâmetro para tresandar a Dolfina), e uma dessas antigas alunas, eu não sabia que idioma implacável tinha a ELAINE, abdicando de sua munificência costumeira, comentou, brevitatis adulatio, com implícito reporte à Dolfina e ao jeans: "Permita-me dizer-lhe, Senhor Professor, que a roupa esporte lhe cai muito bem!" (as mangas da Dolfina, Doutora, elas é que estavam prestes a cair...). A minha prezadíssima ex-aluna vai ter de explicar o motejo a vida inteira, até a quarta geração ("eu vi, eu vi, não minto..."); e dá-lhe histórico dos fatos. Em breve, graças a isso, será a mais popular das alunas da nossa Fac. Uma historiadora. Escuso-a de coração. Eu também achei graça (ou desgraça) da Dolfina e da calça jeans.

 

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2 comentarios

Utinnykicky -

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Juliana Machado -

Prezado VP.
Suas ex-alunas conseguiram algo que nem mesmo durante um sábado de manhã nós outros tantos tivemos. Mas com certeza, nenhum de nós estava a esperar uma grande surpresa (na verdade estávamos sim, afinal era sábado) E nos surpriendeu! Cheguei a pensar: deverá ter o VP jeans em seu closet?
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