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O BLOG DO V-P

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A DOUTRINA DO PERFEITO AMOR

A DOUTRINA DO PERFEITO AMOR

Nos dois primeiros estudos de El ideal caballeresco, tratou LEOPOLDO LUGONES da Doutrina do Perfeito Amor na Vita Nuova de DANTE ALIGHIERI. Essa doutrina é uma espécie de "mística profana que espiritualiza o amor" (PEDRO LUIS BARCIA). A situação intermédia de amor espiritual entre o amor carnal e o amor de DEUS é também a referência de RAMÓN LULL (ou, em castelhano, RAIMUNDO LÚLIO), como se lê em Blanquerna e no Llibre de Amic e Amat.

LULL é menos conhecido do que muitíssimo mais estava a merecer. Sua mística (séc. XIII), MENENDEZ PELAYO, em rigor, só a admite superável àquela altura pela mística de S.BOAVENTURA. A natureza do amor místico lulliana é um médio entre a crença e a inteligência, entre a fé e a ciência.

LUGONES adere à Doutrina tal como exposta por DANTE. Considera a mística religiosa um estado sobre-humano. Já a regeneração no amor perfeito do dolce stil é vida superior humanamente alcançável. Supõe o heroísmo (: o amor que torna o homem generoso e valente), heroísmo que expressa a fé, e a mulher amada do cavaleiro cristão é a beatriz, objeto de um culto espiritual que a regenera. "Las expresiones materiales (escreve LUGONES) redúcense a la mirada, la palabra y la sonrisa, que sintéticamente constituyen la gracia, celebrada en él bajo la mención de atributos espirituales: modestia, decoro, gentileza, en cuyo don ennoble al Amado el puro amor, lo propio que el heroísmo".

Hoje, é muito explicável, num século de sexismo, que tenhamos dificuldades em compreender essa Doutrina. É que nossa cultura (ou in-...) subverte a ordem, a hierarquia dos bens. Leio nas páginas de um grande psiquiatra dos nossos tempos, VIKTOR FRANKL, este brado contra-freudiano: "O amor é o único caminho para chegar ao mais profundo da personalidade de um homem. Ninguém conhece a essência de outro ser humano se não o ama. Pelo ato espiritual do amor é-se capaz de contemplar também o que é ainda potencialidade, o que ainda está por desvelar-se e mostrar-se. Há mais ainda: mediante o amor, a pessoa que ama possibilita ao amado a atualização de suas potencialidades ocultas. O que ama vê mais além e estimula o outro a consumar suas inadvertidas capacidades pessoais".

Continuaremos no tema, se DEUS deixar.

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Entre as costumeiras incitações atribuídas ao demônio do meridianonel mezzo del camin– está a tentação tardia de chercher la femme. É compreensível, pois, a queda do velho LUGONES na selva oscura, apaixonado por sua beatriz Emilia Cadelago.

Mais difícil, contudo, é explicar a tentativa teórica de LUGONES em subordinar sua paixão à doutrina da vita nuova, que supunha exatamente a renúncia heróica ao desejo carnal. Só depois da separação de Emilia na década de 30 (e, de algum modo, o heroísmo terá sido de Emilia) é que LUGONES compreenderá o valor exato da espiritualização do amor cortês. Vita nuova, não percamos isto de vista, é vida retificada.

O cavaleiro andante, no stil nuovo, tem duas metas espirituais: a religião e a honra, objetivos ambos que rematam num respeitoso tributo à mulher. Por isso, dirá LUGONES que a Igreja nunca lançou anátema contra a Doutrina do Perfeito Amor, ainda que visíveis seus riscos (bastaria pensar que uma das beatrizes dantescas, Bice Portinari, continuou a ser-lhe beatriz ainda depois de tornar-se la moglie di Simone dei Bardi), porque essa doutrina consiste "na regeneração por meio do amor sublimado em misticismo". Daí que o trovador seja, em verdade, um "sacerdote laico", e a cortesia do amor equivalha à honestidade. Leiamos em LUGONES:

"Cortesía y honestidad son la misma cosa, afirma Dante en el Convivio, es decir aquella virtud de saber amar sin lascivia, domando el instinto, disciplinándolo ao yugo de la continencia".

Voltaremos ao assunto, auxiliante Domino.

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INAUGUROU-SE O CELLAREIRO

Aviso aos alunos ledores deste blog (aqueles cinco ou seis) que acaba de instalar-se "O CELLAREIRO DO VP".

O Sancho Panza que está nos lindes sadios de todo Quijote propõe-se a recolher as lições cuja textualização pareça útil a meus alunos e publicá-las em seu blog: http://cellareirodovp.blogia.com.

Fico satisfeito com essa iniciativa do cellareiro, a poupar-me o adicional trabalho de escrever, em resumo, as aulas que estou, com meus pecados, a ministrar-lhes.

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SOBRE O SUICÍDIO DE LUGONES

SOBRE O SUICÍDIO DE LUGONES

"Nel mezzo del camin di nostra vita
Mi ritrovai per una selva oscura"
(Divina Comedia).

A dantesca selva escura do meridiano explicará, acaso, a "pasión arrolladora" de LEOPOLDO LUGONES por EMILIA CADELAGO (sua "pasión otoñal", diz ÁLVARO ABÓS). Não sei se ela dará também explicações para a tragédia de fevereiro de 1938 no Tigre.

Se me perguntas o que penso, repetirei apenas, reticente, a negativa de DANTE : "Più non te dico et più no te respondo".

Falta-me ainda percorrer do Retiro ao Tigre na tentativa de regressar à conjecturável meditação lugoniana.

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LUGONES, EMILIA CADELAGO E OS ARES PORTEÑOS DE MEU REGRESSO

LUGONES, EMILIA CADELAGO E OS ARES PORTEÑOS DE MEU REGRESSO

De tantas vezes fazer de Buenos Aires meu preferido lugar na América, permito-me o pecadilho de tomar ares de uma certa arrogância porteña, e isso foi o que fiz há uns dias, pondo-me a percorrer-lhe as calles com o fim de regressar ao tempo de alguns de seus Maiores.

Fui ao Barrio Norte —cujos traços tão bem me haviam ensinado longas caminhadas em conversação com o amigo professor madrilenho MIGUEL AYUSO—, rever o entorno do antigo Palácio Pizzurno, que já foi comparado, penso que com razão, a um castelo do Vale do Loire. Ali na pequeña calle Pizzurno, ergue-se esse Palácio, que, entre outras coisas, localiza a Biblioteca del Maestro.

Por que deveria eu pôr-me em reverente visita a esse lugar? Porque foi lá, ali nesse prédio majestoso, que, na terceira década do século XX, era diretor da biblioteca o grande LEOPOLDO LUGONES (1874-1938). Esse Lugones de La misión del escritor, de Romances del Río Seco e, sobretudo, esse Lugones de El ideal caballeresco, um conjunto de sete estudos publicados em La Nación, dois dos quais estudos, vindo à luz em fevereiro de 1935, se dedicam à Doutrina do Perfeito Amor na Vita Nuova de DANTE ALIGHIERI.

Sei quase de cor esta passagem de LUGONES, em La Misión del Escritor:

 

“o cristianismo (…) deu à civilização

seu sentido universal, aperfeiçoando a obra greco-romana…”.

 

Era uma tarde de 1926. Naquele Palácio Pizzurno, uma jovem, com 20 e pouco mais de idade, EMILIA FEDERICA SANTIAGO CADELAGO, está em busca de um livro: Lunario sentimental. O livro, não o acha ela; seu autor, LEOPOLDO LUGONES, com seus 52 anos, este sim. “Aquella tarde — disse Lugones—, aquella tarde me cambiará la vida”.


Um dia comentarei sobre os juízos lugonianos acerca da Doutrina do Perfeito Amor, e, se houver ocasião, rematarei com umas referências à trágica morte de Lugones. Mas, então, será preciso que eu deixe o Barrio Norte, suba em um trem no Retiro e me desloque até o Tigre.

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AS LUZES DA TRADIÇÃO DAS ESPANHAS

AS LUZES DA TRADIÇÃO DAS ESPANHAS

A América Hispânica ainda guarda as luzes de sua gestação histórica. "Quero que eles chorem por muito tempo seus lutos (escreveu EXUPÉRY na Cidadela), que prestem demoradas homenagens aos mortos, porque a herança passa lentamente de geração para geração".

"O essencial do círio, por exemplo, não é a cera que deixa marca, mas sim a luz que liberta. (...) O essencial da caravana descobre-o quando ela se rala e se consome. Esquece-te do ruído vão das palavras e repara: se o precipício se opõe a sua marcha, ela contorna o precipício, se um rochedo se ergue diante dela, evita-o, se a areia é miúda demais, põe-se à procura de uma areia resistente. Mas, de qualquer maneira, insiste sempre na mesma direção".

 

 

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O SENSO COMUM CONTRA A DESCONSTRUÇÃO

O SENSO COMUM CONTRA A DESCONSTRUÇÃO

Recolho no EXUPÉRY da Cidadela:

"Aquele que, no vão intuito de conhecer a casa, resolve destruí-la, passa a ter em sua frente um montão de pedras, de tijolos e de telhas. Que é feito da sombra, do silêncio, da intimidade que pedras, tijolos e telhas serviam? Chega a ser difícil descobrir que outro uso pode ter esse montão informe. E tudo isto porquê? Porque as pedras, os tijolos e as telhas se viram sem a invenção que os dominava. Abandonou-os a alma e o coração. Ausentou-se da pedra a alma e o coração do homem".

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PARA UNS CINCO OU SEIS DE MEUS ALUNOS

PARA UNS CINCO OU SEIS DE MEUS ALUNOS

 

(Flagrante de uma palestra proferida por um nosso amigo na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, em 2003)

 

Confidenciei a um amigo: custa-me um tanto manter o blog para cinco ou seis leitores entre meus estimados alunos.

Indagou-me o amigo: fora um só, um só leitor dentre esses cinco ou seis, valeria seu empenho?

Não tenho dúvida, qualquer desses cinco ou seis valeria o esforço que despendo e muito mais dedicação.

Por isso, mantenho o blog, agora em novo sítio.


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