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O BLOG DO V-P

LITERATURA

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O AMOR DO STIL NUOVO E O EROS PLATÔNICO

 

Não se nega a presença de perigos (e LUGONES, ao revés, chega positivamente a referi-los como "pecaminosos riesgos") no amor cortês da Vita Nuova, o que não levou a Igreja, entretanto, a condenar a Doutrina do Perfeito Amor, sabiamente avistando a conveniência da cortesia desse amor com a honestidade de sua expressão. Os riscos, sem embargo, são irrefutáveis, e a biografia de LUGONES dá-nos, a propósito, um gráfico exemplo. Uma inquisitiva autora contemporânea viu no amor cortês um forma de "adultério potencial". Crítica perfeitamente dispensável: onde já não haveria esse risco de passagem da potência ao ato pecaminoso do homem pós-adâmico?

Mais interpelante, contudo, é o acercamento entre o amor da Vita Nuova e o amor platônico.

Deixando de lado a circunstância de que, na linguagem vulgar, a expressão "amor platônico" abrange uma amplitude de significados impróprios (: amor distante, amor espiritual, amor romântico etc.), devemos assinalar a clave do eros platônico na imanência de um amor curvado sobre si próprio, o puro desejo sem objeto, a apetência idealista da reconquista da Bondade pretérita. Vale dizer, o amor platônico é uma espécie de amor do amor, que ascende sem repartir-se. É uma recusa do pecado original concertada com a busca do Paraíso perdido. De maneira diversa, o amor do stil nuovo é transcendente, dirige-se a outro, cujos dons busca apreender e fomentar; descende, reparte-se; seu objeto não é o próprio amor mas o bem do amado. Por isso, o amor da Doutrina é construtivo: a mulher civiliza. O amor platônico, estéril, um amor "qui se dévore lui-même, apparenté à la mort" (ETIENNE COUVERT, no imperdível La gnose contre la foi, Chiré enMontreuil, ed. de Chiré, 1989, tomo II).

O que não há, no amor do dolce stil, é o decaimento do amor na esfera reduzida do sexo, a que o amor, na ideologia freudiana, se viu tragicamente resumido.

VIKTOR FRANKL compendiou muito acertadamente: "Normalmente o sexo é uma forma de expressão do amor. O sexo está justificado, até mesmo santificado, na medida em que é veículo do amor, e só nessa medida. Assim, o amor não se entende como um simples efeito secundário do sexo, senão que o sexo se considera um meio para expressar a experiência dessa fusão absoluta e definitiva que é o amor".

Se o amor da Vita Nuova dantesco ou da concepção lulliana exige os estados heróicos da continência não é porque haja recusa da vida ou da repartição de dons, mas exatamente porque, e na medida em que, na variada gradação dos amores há, em tantos casos, o impedimento moral de uma expressão sexual. Ou isso ou já não será possível pensarmos em coisas tão eméritas qual o amor dos pais por seus filhos, dos filhos por seus pais, o amor entre os amigos, até mesmo (em grau de indefinida elevação) o culto de hiperdulia mariana.

É que sempre haveria um freudista de plantão a dizer-nos que esses amores não passariam de sublimação de impulsos e instintos sexuais...

 

 

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CAVALEIRO E TROVADOR, TROVADOR E CAVALEIRO

CAVALEIRO E TROVADOR, TROVADOR E CAVALEIRO

Las Cantigas de Santa María, do Rei ALFONSO, EL SABIO

 

 

LUGONES destaca no texto da Vita Nuova de DANTE uma impressiva nota do heroísmo exigido do cavaleiro. É que no décimo-nono parágrafo da Vita, DANTE disse que os olhos são o princípio, e a boca, o fim (meta) do amor: "…deli occhi, li quale sono principio d’amore; …la bocca, laquale è fine d’amore". Todavia, observou LUGONES, nesse "máximo poema de amor (…) no hay en él un beso siquiera".

Esse heroísmo do cavaleiro que venera (quase cultua) a mulher amada, qual, no helenismo ateniense, se reverenciava a deusa Atena, e que, no cristianismo, chegará ao ápice do culto mariano, remata numa exaltação de ilimitada generosidade, a reabilitação da mulher, que passa a ocupar o papel impulsionador da Cavalaria, da cristianíssima Cavalaria. "A Cavalaria, diz LUGONES, foi uma das formas eminentes de (…) colaboração com Deus", porque, na concepção lugoniana, o heroísmo, o amor e a generosidade são expressões, de modo respectivo, das virtudes teologias da fé, da esperança e da caridade. Por isso, concertadas entre si, essas virtudes concedem à mulher do stil nuovo"es la mujer quien civiliza". um emérito papel gerador:

O cavaleiro não é só cruzado. É trovador: a Cavalaria, esse prodígio da Cristandade, é também realização poética. Trovar é encontrar. Encontrar o Amor Perfeito, o estado místico desse amor próprio de heróis. Não é por menos, dirá LUGONES, que, grandes homens do século XIII, "supremo en su esplendor", foram também grandes poetas: assim, Inocêncio III, Alfonso o Sábio, S.Francisco de Assis e S.Tomás de Aquino. O trovador é o cavaleiro do ideal civilizador da Cristandade. O cavaleiro é o trovador da beleza íntegra da mulher amada, a mulher, quase à espartana, senhora da Cortesia, que exige a pureza do heroísmo, a peleja pela justiça, em troca não mais do que um sorriso e uma saudação (la bocca è fine d'amore).

 

 

 

 

A DOUTRINA DO PERFEITO AMOR

A DOUTRINA DO PERFEITO AMOR

Nos dois primeiros estudos de El ideal caballeresco, tratou LEOPOLDO LUGONES da Doutrina do Perfeito Amor na Vita Nuova de DANTE ALIGHIERI. Essa doutrina é uma espécie de "mística profana que espiritualiza o amor" (PEDRO LUIS BARCIA). A situação intermédia de amor espiritual entre o amor carnal e o amor de DEUS é também a referência de RAMÓN LULL (ou, em castelhano, RAIMUNDO LÚLIO), como se lê em Blanquerna e no Llibre de Amic e Amat.

LULL é menos conhecido do que muitíssimo mais estava a merecer. Sua mística (séc. XIII), MENENDEZ PELAYO, em rigor, só a admite superável àquela altura pela mística de S.BOAVENTURA. A natureza do amor místico lulliana é um médio entre a crença e a inteligência, entre a fé e a ciência.

LUGONES adere à Doutrina tal como exposta por DANTE. Considera a mística religiosa um estado sobre-humano. Já a regeneração no amor perfeito do dolce stil é vida superior humanamente alcançável. Supõe o heroísmo (: o amor que torna o homem generoso e valente), heroísmo que expressa a fé, e a mulher amada do cavaleiro cristão é a beatriz, objeto de um culto espiritual que a regenera. "Las expresiones materiales (escreve LUGONES) redúcense a la mirada, la palabra y la sonrisa, que sintéticamente constituyen la gracia, celebrada en él bajo la mención de atributos espirituales: modestia, decoro, gentileza, en cuyo don ennoble al Amado el puro amor, lo propio que el heroísmo".

Hoje, é muito explicável, num século de sexismo, que tenhamos dificuldades em compreender essa Doutrina. É que nossa cultura (ou in-...) subverte a ordem, a hierarquia dos bens. Leio nas páginas de um grande psiquiatra dos nossos tempos, VIKTOR FRANKL, este brado contra-freudiano: "O amor é o único caminho para chegar ao mais profundo da personalidade de um homem. Ninguém conhece a essência de outro ser humano se não o ama. Pelo ato espiritual do amor é-se capaz de contemplar também o que é ainda potencialidade, o que ainda está por desvelar-se e mostrar-se. Há mais ainda: mediante o amor, a pessoa que ama possibilita ao amado a atualização de suas potencialidades ocultas. O que ama vê mais além e estimula o outro a consumar suas inadvertidas capacidades pessoais".

Continuaremos no tema, se DEUS deixar.

 

Entre as costumeiras incitações atribuídas ao demônio do meridianonel mezzo del camin– está a tentação tardia de chercher la femme. É compreensível, pois, a queda do velho LUGONES na selva oscura, apaixonado por sua beatriz Emilia Cadelago.

Mais difícil, contudo, é explicar a tentativa teórica de LUGONES em subordinar sua paixão à doutrina da vita nuova, que supunha exatamente a renúncia heróica ao desejo carnal. Só depois da separação de Emilia na década de 30 (e, de algum modo, o heroísmo terá sido de Emilia) é que LUGONES compreenderá o valor exato da espiritualização do amor cortês. Vita nuova, não percamos isto de vista, é vida retificada.

O cavaleiro andante, no stil nuovo, tem duas metas espirituais: a religião e a honra, objetivos ambos que rematam num respeitoso tributo à mulher. Por isso, dirá LUGONES que a Igreja nunca lançou anátema contra a Doutrina do Perfeito Amor, ainda que visíveis seus riscos (bastaria pensar que uma das beatrizes dantescas, Bice Portinari, continuou a ser-lhe beatriz ainda depois de tornar-se la moglie di Simone dei Bardi), porque essa doutrina consiste "na regeneração por meio do amor sublimado em misticismo". Daí que o trovador seja, em verdade, um "sacerdote laico", e a cortesia do amor equivalha à honestidade. Leiamos em LUGONES:

"Cortesía y honestidad son la misma cosa, afirma Dante en el Convivio, es decir aquella virtud de saber amar sin lascivia, domando el instinto, disciplinándolo ao yugo de la continencia".

Voltaremos ao assunto, auxiliante Domino.

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SOBRE O SUICÍDIO DE LUGONES

SOBRE O SUICÍDIO DE LUGONES

"Nel mezzo del camin di nostra vita
Mi ritrovai per una selva oscura"
(Divina Comedia).

A dantesca selva escura do meridiano explicará, acaso, a "pasión arrolladora" de LEOPOLDO LUGONES por EMILIA CADELAGO (sua "pasión otoñal", diz ÁLVARO ABÓS). Não sei se ela dará também explicações para a tragédia de fevereiro de 1938 no Tigre.

Se me perguntas o que penso, repetirei apenas, reticente, a negativa de DANTE : "Più non te dico et più no te respondo".

Falta-me ainda percorrer do Retiro ao Tigre na tentativa de regressar à conjecturável meditação lugoniana.

LUGONES, EMILIA CADELAGO E OS ARES PORTEÑOS DE MEU REGRESSO

LUGONES, EMILIA CADELAGO E OS ARES PORTEÑOS DE MEU REGRESSO

De tantas vezes fazer de Buenos Aires meu preferido lugar na América, permito-me o pecadilho de tomar ares de uma certa arrogância porteña, e isso foi o que fiz há uns dias, pondo-me a percorrer-lhe as calles com o fim de regressar ao tempo de alguns de seus Maiores.

Fui ao Barrio Norte —cujos traços tão bem me haviam ensinado longas caminhadas em conversação com o amigo professor madrilenho MIGUEL AYUSO—, rever o entorno do antigo Palácio Pizzurno, que já foi comparado, penso que com razão, a um castelo do Vale do Loire. Ali na pequeña calle Pizzurno, ergue-se esse Palácio, que, entre outras coisas, localiza a Biblioteca del Maestro.

Por que deveria eu pôr-me em reverente visita a esse lugar? Porque foi lá, ali nesse prédio majestoso, que, na terceira década do século XX, era diretor da biblioteca o grande LEOPOLDO LUGONES (1874-1938). Esse Lugones de La misión del escritor, de Romances del Río Seco e, sobretudo, esse Lugones de El ideal caballeresco, um conjunto de sete estudos publicados em La Nación, dois dos quais estudos, vindo à luz em fevereiro de 1935, se dedicam à Doutrina do Perfeito Amor na Vita Nuova de DANTE ALIGHIERI.

Sei quase de cor esta passagem de LUGONES, em La Misión del Escritor:

 

“o cristianismo (…) deu à civilização

seu sentido universal, aperfeiçoando a obra greco-romana…”.

 

Era uma tarde de 1926. Naquele Palácio Pizzurno, uma jovem, com 20 e pouco mais de idade, EMILIA FEDERICA SANTIAGO CADELAGO, está em busca de um livro: Lunario sentimental. O livro, não o acha ela; seu autor, LEOPOLDO LUGONES, com seus 52 anos, este sim. “Aquella tarde — disse Lugones—, aquella tarde me cambiará la vida”.


Um dia comentarei sobre os juízos lugonianos acerca da Doutrina do Perfeito Amor, e, se houver ocasião, rematarei com umas referências à trágica morte de Lugones. Mas, então, será preciso que eu deixe o Barrio Norte, suba em um trem no Retiro e me desloque até o Tigre.

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